segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Comida para Macunaíma


"Por volta de 1940, João Peretti dava-me uma merenda em sua casa de Caxangá, no Recife (516). Serviço de velha porcelana brasonada, cristais da Boêmia, vinhos franceses, conjunto delicado de coisas deliciosas. Estavam presentes D. João de Orleans e Bragança, Públio Dias e Guilherme Áuler, médicos e eu. João Peretti avisou-nos haver um famoso pé-de-moleque, feito com os rigores da tradição pernambucana. O criado, negro, alto, sisudo, obedecia aos olhares e gestos discretos do anfitrião. Bandeja com infinidade de queijos da França, Itália, Holanda, Portugal. Pusemos um pedaço no prato. O telefone toca e Peretti foi atender. O criado, impossível e grave, olhou-nos com surpresa e, sem vacilar, serviu-nos de uma vasta tora do "pé-de-moleque" junto ao mais aristocrático dos queijos franceses. Não compreendia queijo sem mais alguma coisa. Volta Peretti, com seu ar de gentil-homem apressado, e vê nos nossos pratos o queijo e o "pé-de-moleque", hurlaient de se trower ensemble, e ergue lentamente os braços para o alto, num mudo desespero irreprimível.Rimos o resto da tarde. E brasileiramente não dispensamos de comer o queijo com o pé-de-moleque e Bourgogne."
Pequeno trecho do livro História da Alimentação no Brasil de autoria do potiguar Luis da Câmara Cascudo. Brasileiríssimo, operário prolixo no ofício da escrita e extremamente perspicaz na narrativa da história de nosso povo e também desse nosso país de tão difícil compreensão. Apesar de algumas escolhas políticas um tanto duvidosas ao longo da vida, é impossível falar sobre folclore e comida no Brasil sem citar ao menos uma de suas obras. Desconfie sempre de alguém que discorra sobre cozinha brasileira e não cite esse tão tupiniquim cidadão, um cara cujas palavras parecem funcionar como um espelho sempre a nos mostrar nossa verdadeira identidade.
Boas!

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