
Era uma vez... Um lindo e grande e gordo gato xadrez que num pires bem rasinho, tomava leite desnatado com algumas gotas de xerez. Não, não, não. Não é nada disso que tenho para contar, apenas comecei assim para falar que nem todos os contos que começam com era uma vez são estórias infantis feitas para alimentar a imaginação ou para embalar uma boa noite de sono. Muitas de nossas artes e ciências têm estórias que pela falta de informações precisas devido ao longo tempo já passado acabam se tornando histórias, ou mesmo sendo aceitas como verdadeiras apenas para facilitar o entendimento. Às vezes existem mais de uma versão para o mesmo fato, ou ainda aquela velha máxima de quem conta um conto aumenta um ponto, aí ganha a versão que for mais contada ou mais simpática e conseguir se espalhar mais rapidamente. A gastronomia é mestre em produzir as mais variadas versões de como ou porque aquele prato recebeu aquele determinado nome homenageando essa ou aquela pessoa, figura, cidade, etc.
A nossa versão de hoje é sobre o tão imitado, confuso e conhecidíssimo sobrenome Belle Meunière. Sobrenome porque o primeiro nome pode ser qualquer tipo de pescado, os mais comuns são o Congrio, o Badejo, e o Linguado. Espalhado por praticamente todo o litoral e outras grandes cidades do interior, o Belle Meunière significa geralmente (provável, mas não garantido) que o peixe é empanado com farinha de trigo, servido ao molho de manteiga e acompanhado de champignons, camarões-sete-barbas, limão e alcaparras. Na verdade são dois tipos de receita, ambas de origem francesa, a primeira é o peixe à Meunière, e a segunda seria uma evolução do original, que é á Belle Meunière. Na primeira já tínhamos a farinha de trigo para empanar, a pimenta-do-reino e o limão. Mais tarde, provavelmente lá pela metade do século XX, um gastrônomo francês que considerava o prato tradicional muito pobre, incrementou-o com camarões e champignons, batizando a nova versão como Belle Meunière.
E o era uma vez... onde está? Olhe, tudo isso começou com a intenção de se homenagear uma linda personagem de um velho conto infantil francês, conto esse sobre uma meunière, que em português seria uma senhorita que cuida do dia a dia no moinho de trigo. Já tenho na cabeça uma imagem pronta dessa famosa meuniére, moça tímida de uma beleza forte entre simples e rústica, tímida, mas com um lindo sorriso e mais aquele clássico lenço amarrando os longos cabelos morenos claros, o vestido um pouco acima do joelho, de tecido leve, rodado, florido, mas já puído. Enfim, aquela imagem cativante de um primeiro amor simples e sincero, que todos um dia já sonhamos ter. Inclusive o cozinheiro lá no começo que frente a frente com sua faca e seu peixe, ficava se imaginando na companhia da bela meunière. Se procuras um grande amor e um prato para homenageá-lo, boa sorte. Eu já servi as minhas crocantes Sardinhas á Isabel.
Não gostou dessa versão? Conte-me a sua.
Boas!
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